As pessoas que queremos nunca nos são companhia quando desejamos, o silêncio dialoga conosco o tempo todo e diz verdades um tanto duras, é o vale gelado que atravessamos quando estamos sem agasalho e nos sentimos desprotegidos. O sim está do outro lado do lago, de águas frias e congelantes, mas não sabemos nadar e não há meio para a travessia. Há um único refúgio, mas nem sempre conseguimos lembrar a senha que permite a transposição dos mundos. Esconder-se no sonho é uma possibilidade um tanto quanto cruel também; é a utopia do sempre querer e nunca conseguir; é o esboço do sorriso; é a realidade que nos belisca quando estamos mais com os pés lá do que cá.
É permitido sonhar, desde que não se esqueça de que ser só é a condição. Sonhar junto não é permitido. Se sonha só o sonho do sorrir junto.
Saber das limitações é o primeiro passo para conviver bem com a solidão. Não tenho medo dela, não me assusta, somente algumas vezes me questiono o porquê a mim como companhia. Em diferentes fases, com diferentes constâncias, mas sempre aqui, insistente, se fazendo percebida. Houve um tempo em que doía, arrancava algumas lágrimas e gerava certas revoltas. Hoje aceitei sua presença, permiti que me fizesse companhia desde que não machuque tanto.
Por vezes traz junto o desamparo, e é como se a minha fragilidade fosse visível a todos. Já vesti capas, algumas delas a de alguma heroína, para iludir sobre a minha força, outras emprestei do Harry Potter a que me tornasse invisível, nenhuma delas poderosa o suficiente para me trazer o que me faltava. Sempre foi assim, sempre faltou parte, nunca me permitiram ser inteira. No entanto, aos pedaços também aprendi a ser - sou quebra-cabeça, por isso é tão difícil eu mesma me entender e visualizar o todo.
Sei sorrir diante de algumas negativas da vida... Paciência, resignação, resiliência também me definem... Nem sempre é fácil, já senti muito nó na garganta, quando a saliva tem gosto de fel. Mas é possível sobreviver e viver de alguma forma, diferente da normalidade das pessoas, mas viver. Isso me faz única, poucos têm páginas semelhantes as da minha história. Cobraram-me a maturidade bem cedo, tiraram-me nessa época os óculos coloridos, "enxerga bem? há de ser assim"! E foi, tem sido desde então...
Ah, sim! Algumas vezes me iludi, vivi o sonho mais que a realidade, mas dura pouco, logo sou chamada a entender as situações como verdadeiramente são. E dá-lhe nãos. Está bem. Que seja. Aprendo rápido. Isso pode, aquilo não pode. Pode sorrir, mas não gargalhar. Pode voar, mas presa por uma corda. Pode imaginar, mas viver só o real. Experimente, mas não abuse. Viva o mundo do "se...", jamais o do é.
Sei dar sentido ao caos que me compõe. Por isso as pessoas que me integram me são tão necessárias e urgentes. A partir do momento que me preenchem já não as posso prescindir. Um erro crasso, porque não as posso controlar, não posso obrigá-las a me terem no mesmo grau de importância que as tenho, não tenho a posse sobre elas. A razão e a inteligência também me abandonam em algumas passagens dessa confusa trajetória. Uso sempre os mesmos brincos, a mesma pulseira, as roupas são parecidas em detalhes ou cores, o mesmo estilo de sapato, previsibilidade é uma marca do meu eu. Confundo as pessoas com minhas coisas. Mas quando a solidão traz junto a sensatez, sei que estou errada. Assumo quando erro, envergonho-me deles, sei perdoar e sei pedir perdão. Mas nem sempre tenho o sim, nesses casos, sou forçada a aceitar de novo o não. Mas eu aprendo... Sou constante aprendizado, por isso aceito as minhas mutações sem resistências. Se me são proibidos os passos largos, sei que posso chegar, embora mais demoradamente, com os curtos. Por que permitir o desgaste da alma? Já sofreu muitos arranhões... Tem tantas cicatrizes.
Perdi sim algumas qualidades nesse percurso tão cheio de negativas. Já não sou tão cordial como outrora fui. Não perdi a bondade, sempre tão intrínseca a mim, mas não distribuo as porções a quem hoje julgo não merecerem. Antes não fazia triagens, todos me mereciam sorrindo e oferecia-lhes o meu melhor. Talvez tenha me tornado um pouco cética (às vezes cínica), no entanto nunca tive vocação para Pollyanna. Perdi certamente um pouco de mim, mas vou me achando, não tenho a avidez por ser assim tão eu... Nem sei se quero. As Barbies são esteticamente perfeitas, mas são de plástico. Não passam de uma ilusão. Nunca quis ser iludida, só achava que algumas definições de felicidade poderiam ser uma constante fora dos dicionários.
Eu, definitiva e incontestavelmente, não tenho medo dos nãos. Eu sou "rabo de lagartixa". Tentam matar cortando partes, mas elas crescem e dão nova possibilidade de vida.

8 cidadãos comentaram:
Já quis escrever um livro? :D
Você me ajuda???
ok, serei o revisor oficial. huasihsaiuashasuias
ajudar como??? :D
Ajudar escrevendo também... Que tal textos meus e seus???
Sei não. :D
Tenta escrever um romance! Ou um conto...
Algo com personagens. :P
Quero ler algo assim.
ahh seus textos sempre impecaveis :D
Você traduz os sentimentos com tanta...tanta...tanta NATURALIDADE, que me emociona !
QUEROOO VER ESSE LIIIVRO URGENTEE HEIN :DD
;*
Eu compro seu livro e ainda faço propaganda!!!
Se colocar um Edward Cullen no meio então eu faço vender um monte de exemplares!
;DD
Dona Andrea como você consegue?? Escrever sobre sentimentos é tãaaao difícil e você parece fazer isso com tanta facilidade. Meus sinceros parabéns! E eu li o texto inteiro, não sou como o Andrey ;PP
Deinha minha querida,que emoção
senti lendo o que escreveste...cheguei as lágrimas ao sentir em ti, minha querida, tanto sentimento...bjs
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