EXORCISMO

"Afinal de quantas maneiras um coração pode ser destroçado e ainda continuar batendo?" (trecho de Lua Nova)
É bom falar sobre as dores que nos afligem. Funciona como uma espécie de exorcismo, mesmo que depois ainda as sintamos lá, e continuem a perturbar o nosso dia, a nossa noite, continuem a roubar a suposta paz e a transformar o que era para ser sonho em pesadelo.
Tantas vezes parecem maiores do que julgamos ser capazes de suportar e desejamos que tirem a lupa dos nossos olhos para que dimensionemos o exato tamanho. Nem sempre são microscópicas como gostaríamos que fossem. Tantas vezes sufocam, tiram o ar, tiram a vontade de continuar, tiram a certeza da qual nunca fomos donos sobre os sentimentos que regem o existir.
Nesse contexto, o coração anda aos cacos, apresenta-se aos farrapos. Tal qual objeto frágil que cai das mãos, partiu-se em pedacinhos vários e irregulares, de modo que se torna difícil a reconstituição sem marcas de emenda. Não escapamos das crueldades do destino, nem sempre somos ágeis para desvencilhar das armadilhas dos caminhos que ousamos seguir sem conhecer, assim, ao cairmos, acabamos por colecionar alguns esfolamentos e eles doem. Bastante.
Não adianta chorar por essas dores. Lágrimas não curam. Aliviam momentaneamente, depois voltam a se fazer sentidas. Uma dor aguda, profunda, contínua, intensa. Ninguém as sente por nós. Estão cravados na alma os nossos particulares espinhos. E quando assim estão, é porque fomos alvo fácil. Não fomos capazes de desenvolver a proteção necessária, ou mesmo nem quiséssemos nos resguardar, por isso resta-nos suportar...
Inevitavelmente o sentimento guarda luto, traja negro e tudo dói. Tudo atinge. Tudo abala. Tudo dilacera. Afinal, estamos com a leve capa da fragilidade, despidos da armadura do poder, ou da mera sensação de poder.
Sangramos as dores que nos tomam. Saem pelos poros. Incomoda engolivar a saliva. O coração não se faz esquecido, embora muitas vezes em estado de esquecimento. Fica apertado, incomodado e incomodando, como quando se calça 36 e caminha-se calçado num 34. Podemos descobrir que nos falta autocontrole, que nos abandona a força, que nos faltam algumas poucas coisas essenciais, que nos faltam as certezas que nos edificam.
Não é uma patologia, não existe analgésico, podemos aceitar como consequências de algumas posturas adotadas diante da vida ou como momentos necessários ao crescimento espiritual. Há a máxima "pelo amor ou pela dor"... Só é difícil entender a lógica que nos encaminha o apreendizado pelas vias do sofrimento. Seria mais aprazível pelo percurso do amar. Ou não. Amar demais também machuca. E há como amar menos? Então, será que temos opção?
Certo é que carregamos conosco uma incômoda sensação vez ou outra que nos instiga à busca de princípios, ou de alternativas, que possam orientar passos e ensinar novas formas de enxergar as coisas, pessoas, e até nós mesmos. Aliás, acabamos por descobrir que é difícil sermos nós próprios para estarmos felizes, porque até mesmo os palhaços pintam a face para fazer rir, podendo esconder a tristeza que carregam.
E de máximas em máximas é possível concluir que "deixar a vida me levar, vida leva eu" é algo incontestável em algumas circunstâncias , porque ninguém rema sozinho contra a correnteza e, quando ocupados por dores, sozinhos nos sentimos. O melhor é aceitar que, depois de toda queda d'água, há mansa água... Tudo passa. Tempestades não duram mais que horas. Não se conhece um único lugar que vive sob trovoadas. E Renato Russo já cantava em outros tempos que "é claro que o sol vai voltar amanhã". Não é aconselhável combater a filosofia dos poetas ou dos loucos. Sanidade nunca foi atestado de alegria, que dirá do que buscamos todos: felicidade.
Deixemos as dores nos ocuparem. Uma hora deixarão de ser nossas inquilinas... Desejarão ter casa própria. Poderemos, então, retomar a posse do nosso eu!

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